Quando o assunto é saúde do coração, uma dúvida costuma surgir à mesa: afinal, o que causa maior prejuízo: sal, açúcar ou gordura? A resposta pode surpreender. Nossos especialistas afirmam que a questão não é tão simples e não existe um supervilão, capaz de carregar sozinho a culpa pelas doenças cardiovasculares. O verdadeiro problema está na combinação de maus hábitos mantidos ao longo dos anos. “O principal problema é o consumo frequente de alimentos ultraprocessados, ricos em sódio, açúcares adicionados, gorduras de baixa qualidade e diversos aditivos. Esses produtos favorecem o desenvolvimento de hipertensão, diabetes, obesidade e alterações do colesterol, que são importantes fatores de risco para doenças cardiovasculares”, explica o chefe da nossa Unidade Cardiointensiva, José Artur Lopes de Albuquerque.

José Artur Lopes de Albuquerque, chefe da nossa Unidade Cardiointensiva: “cuidar do coração significa adotar um estilo de vida saudável e sustentável. O que faz diferença são pequenas escolhas diárias, como cozinhar mais, consumir alimentos frescos, praticar atividade física e evitar o excesso de produtos industrializados”.
Nossa nutróloga, Sabrina Guerreiro, concorda e aponta que se for para indicar um vilão, o foco devem ser os alimentos ultraprocessados. Ela destaca uma diretriz recente da America Heart Association (Associação Norte-americana do Coração) para melhorar a saúde cardiovascular. “É uma orientação que eu sempre adotei: o todo da alimentação deve ser saudável e não faz sentido eleger um grande vilão. O maior risco está no desequilíbrio e no consumo excessivo. Devemos traçar estratégias para diminuir o impacto de alguns alimentos, sem necessariamente banir o consumo”, recomenda.
As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte no Brasil e no mundo. Só este ano, até a primeira semana de junho, o cardiômetro, que é um indicador do número de mortes por doenças cardiovasculares no país criado pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), registrava mais de 176 mil mortes no país, o equivalente a um óbito a cada 90 minutos.
“Um exagero eventual dificilmente causa grandes consequências em uma pessoa saudável. Já uma alimentação inadequada associada ao sedentarismo, tabagismo, sono ruim e estresse crônico aumenta significativamente o risco de infarto, AVC e insuficiência cardíaca”, pontua o nosso cardiologista. No entanto, ele alerta que sal, açúcar e gorduras também trazem prejuízos à saúde, quando consumidos em excesso.
– Sal: aumenta a pressão arterial e favorece retenção de líquidos, elevando o risco de hipertensão, AVC e insuficiência cardíaca;
– Açúcar: o consumo excessivo contribui para obesidade, diabetes tipo 2, inflamação e alterações metabólicas que aceleram a aterosclerose e
– Gordura: depende do tipo. As gorduras trans e o excesso de gorduras saturadas podem aumentar o colesterol LDL (“colesterol ruim”), enquanto gorduras insaturadas, presentes em peixes, azeite e oleaginosas, exercem efeito protetor.
“Atualmente, tanto a Nutrologia quanto a Cardiologia entendem que mais importante que apenas a quantidade total das gorduras, é a qualidade dessa gordura e, como as gorduras fazem parte do nosso hábito alimentar. Não faz sentido excluir as gorduras, pois o nosso corpo precisa delas para funcionar adequadamente, e o segredo está em saber escolher as melhores fontes de gorduras saudáveis e benéficas para a saúde cardiovascular e do corpo como um todo”, salienta Sabrina. Ela ensina que devemos evitar as gorduras trans presentes nos produtos industrializados, que reduzem o colesterol bom (HDL) e aumentam o ruim (LDL) e são encontradas nos biscoitos recheados, margarinas e salgadinhos de pacote, entre outros.
As chamadas gorduras boas, que fazem parte de uma dieta cardioprotetora, são encontradas em alimentos como azeite de oliva, abacate, castanhas e peixes. “O foco deve estar na redução das gorduras trans e no consumo moderado das gorduras saturadas, especialmente quando presentes em alimentos ultraprocessados”, frisa o cardiologista.
As aparências enganam

Sabrina Guerreiro, nutróloga, ensina: “o todo da alimentação deve ser saudável e não faz sentido eleger um grande vilão. O maior risco está no desequilíbrio e no consumo excessivo”.
Os especialistas fazem uma importante ressalva: alimentos ‘fit’, ‘light’ e ‘zero açúcar’ podem criar uma falsa sensação de segurança cardiovascular e nem sempre são sinônimo de saúde. “Muitas vezes, um alimento com redução de açúcar pode apresentar alto teor de sódio, gordura ou aditivos. Por isso, é importante ler os rótulos e lembrar que o melhor parâmetro continua sendo a qualidade global da alimentação”, adverte José Artur. Sabrina lista alguns alimentos que são considerados inofensivos, mas que costumam concentrar muito sódio e passam despercebidos no dia a dia:
– Temperos prontos e caldos em cubos: são ‘bombas’ de sódio e costumam conter glutamato monossódico, que é um realçador de sabor que aumenta a ingestão de sal sem que a gente perceba;
– Molhos prontos para saladas e ketchup: esses produtos usam o sódio em grandes quantidades como conservante e para equilibrar a acidez. Até mesmo opções com sabor agridoce, como o ketchup e o molho barbecue, escondem muito sal por trás do açúcar;
– Queijos brancos, como o minas frescal e o cottage: têm menos gordura saturada, mas frequentemente recebem uma quantidade considerável de sódio para garantir a durabilidade e o paladar;
– Refrigerantes zero ou diet: para substituir o sabor do açúcar e conservar a bebida, a indústria adiciona edulcorantes artificiais à base de sódio (como o ciclamato de sódio e a sacarina sódica), além de conservantes como o benzoato de sódio, aumentando a conteúdo total de sódio;
– Pães: o sódio é utilizado na panificação não só pelo sabor, mas para controlar a fermentação e melhorar a textura da massa.
Atividade física resolve?
Mas será que é possível compensar alguns excessos na alimentação com uma caprichada na atividade física? José Artur salienta que a prática regular de exercícios traz inúmeros benefícios e reduz o risco cardiovascular, mas não é capaz de neutralizar completamente uma alimentação inadequada. “Cuidar do coração significa adotar um estilo de vida saudável e sustentável. O que faz diferença são pequenas escolhas diárias, como cozinhar mais, consumir alimentos frescos, praticar atividade física e evitar o excesso de produtos industrializados”, diz ele. A dica da nossa nutróloga é “descasque mais e desembale menos. Procure comer comida de verdade! Evite industrializados e ultraprocessados. Parece uma recomendação muito ampla, mas é um padrão alimentar saudável, consistente ao longo da vida que vai proteger o coração e a sua saúde de uma forma geral”.

